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A família como núcleo de conflitos
Orfãos do Eldorado
Milton Hatoum
Companhia das Letras
112 páginas
Milton Hatoum é hoje o nosso escritor brasileiro de ponta. Quatro livros que mantém o mesmo nível de qualidade e uma temática que, embora se repita, apresenta-se sempre renovada e funciona como uma espécie de aprofundamento da forma como foi abordada anteriormente. O núcleo familiar é o centro do universo ficcional de Hatoum, com algumas pequenas variações entre as partes em conflito. Seus quatro livros podem ser vistos, inclusive, como um bloco só, uma obra única, de rara beleza e densidade psicológica, que tem como pano de fundo imbricações sociais, políticas e econômicas de uma região do país, sob o ponto de vista literário, pouco conhecida dos brasileiros.
Em Dois irmãos, eleito pela crítica como o melhor romance brasileiro dos últimos quinze anos, os contrastes recaem sobre dois irmãos que se odeiam, Omar e Yaqub, e alimentam um conflito familiar de melancólicas conseqüências. Em Cinzas do Norte, o conflito ocorre entre pai e filho, assunto que também não é novidade em literatura. Quanto ao novo livro de Hatoum, Órfãos do Eldorado, há na sua estrutura, na relação de contrastes entre os personagens principais, uma sensível proximidade com Cinzas do Norte. Tanto no primeiro como no segundo, o conflito ocorre entre pai e filho. Em Cinzas do Norte, o pai não aceita a vocação do filho para as artes. Diante da incapacidade do pai para entendê-lo e aceitá-lo nas suas escolhas, o filho enfrenta-o e se rebela. Vai consumindo-se aos poucos, de forma que sua própria vida acabe sendo o caro preço da vingança. Em Órfãos do Eldorado, o filho nega-se a ser o herdeiro perfeito, aquele idealizado pelo pai, e como vingança, após a morte deste, vai se desfazendo de todo o patrimônio da família. Comporta-se assim, também, levado pelo amor a uma jovem, cuja personalidade e relação com as lendas da região amazônica lembra personagens marcantes de Isabel Allende e Gabriel García Márquez.
Interessa também na obra de Hatoum o espaço no qual a sua ficção se desenrola, Manaus e o entorno do rio Amazonas, tendo como ingredientes uma cultura construída entre portos, mercados, embarcações de transporte, grandes fazendas, teatros, palácios e vilas ribeirinhas. Esses efervescentes espaços são verdadeiras ilhas nas quais se desdobram outros pequenos núcleos de ação: portos habitados por criaturas sofridas que perambulam entre o subemprego, espeluncas e bordéis; embarcações que sobem e descem o rio carregando a matéria prima que movimenta a economia da região, especialmente a borracha; grandes fazendas administradas por senhores pouco éticos com fortes e sistemáticas influências políticas; finos teatros que recebem uma elite muitas vezes mais preocupada em praticar a arte das aparências, e os arrabaldes onde vive o povo simples e sobrevivente das relações, quase sempre injustas, entre capital e trabalho. Todos esses pequenos núcleos acabam se cruzando na pele de personagens-chave, com a preponderância dos interesses do mais forte, mesmo que as partes em conflito estejam na mesma trincheira, um palacete em Manaus ou uma grande fazenda no interior do Amazonas, e sejam elas dois irmãos ou um pai e um filho.
Outra característica de Milton Hatoum é a ambigüidade sobre os laços familiares de certos personagens. Em alguns casos a dúvida permanece, como a paternidade do narrador de Dois Irmãos ou os verdadeiros vínculos entre o pai de Arminto Cordovil e a jovem por quem ele se apaixona e que colabora com a sua bancarrota, em Órfãos do Eldorado. São dúvidas que cativam ainda mais o leitor, que alimentam a reflexão e tornam cada novo livro de Milton Hatoum uma oportunidade de reler um texto de altíssima qualidade e ir mais fundo naquilo que a literatura brasileira tem de melhor e mais consistente.
[Revista APLAUSO - edição 92]
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h52
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Dica de oficina
De um personagem de Norman Mailer, extraído do livro Os machões não dançam, editora Nova Fronteira, página 117:
“Dizem que Updike foi pintor, e pode-se ver isso em seu estilo. Ninguém examina superfícies tão minuciosamente quanto ele, e usa os adjetivos com mais precisão do que qualquer outro escritor da língua inglesa em nossos dias. Hemingway aconselhou a não usá-los, e Hemingway estava certo. O adjetivo é a opinião do autor sobre o que está acontecendo, nada mais. Se eu escrevo ‘um homem forte entrou na sala’, isso significa apenas que ele é forte em relação a mim. A não ser que eu tenha descrito minha pessoa para o leitor, posso ser o único cara no bar impressionado pela força do homem que acabou de entrar. É melhor dizer: ‘Um homem entrou. Segurava uma bengala e, por alguma razão, a quebrou ao meio como se fosse um pequeno galho de árvore.’ Naturalmente, a frase fica mais longa.”
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 15h01
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Ainda Gore Vidal
Outro trecho do livro De fato e de ficção, ensaios contra a corrente, citado no post ali de baixo, que aborda a questão das adaptações de obras literárias para o cinema. Agora sobre a relação entre roteiristas e diretores, e as possibilidades e impossibilidades de um e de outro na realização de um filme:
“Nessa área poucos diretores possuem a modéstia de Kurosawa, que disse recentemente: ‘Com um roteiro muito bom, até mesmo um diretor de segunda classe é capaz de fazer um filme de primeira classe. Mas com um roteiro ruim, até um diretor de primeira classe é incapaz de fazer um filme que seja realmente de primeira classe.’”
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h37
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Cinema e literatura
Há muito tempo venho imaginando o que seria do cinema, do brasileiro em especial, se uma praga de traças assolasse o planeta terra e destruísse todas as bibliotecas e livrarias aqui estabelecidas. O cinema entraria em preocupante crise de criatividade. Não haveria mais livros para serem adaptados e nossos diretores teriam que espremer boas histórias das próprias cabeças. Algo muito grave, não tenho dúvidas.
Na última feira do livro de Porto Alegre garimpei num sebo o livro De fato e de ficção, ensaios contra a corrente, de Gore Vidal, editora Companhia das Letras, uma coletânea de leitura prazerosa e proveitosa ao mesmo tempo. Do ensaio “Quem faz o cinema?” destaco dois trechos sobre o fato de a autoria de um filme, hoje, ser atribuída tão-somente ao diretor, mesmo que se trate da adaptação de um texto literário de autor conhecido:
“Essa situação seria mais aceitável se os diretores de filmes tivessem se tornado auteurs. Mas quase todos eles estão mais do que nunca afastados da arte - se não da vida. A maioria é constituída por meros técnicos. Uns poucos vieram do teatro; muitos começaram como editores, câmeras, realizadores de comerciais; o mais terrível é que nos últimos anos a maioria é constituída por pessoas que fizeram curso de cinema na universidade. Em princípio, não há nada errado com uma compreensão profunda dos meios técnicos disponíveis para que uma imagem seja registrada no celulóide. Mas o cinema não é apenas formas de luz, assim como um romance não é apenas papel manchado de tinta. Um filme é uma determinada reação à realidade, e essa reação deve ser definida, primeiramente, por um escritor. Infelizmente, nenhum diretor de cinema contemporâneo suporta ser visto como mero intérprete. Sente necessidade de ser o único criador. O resultado disso é que em geral ele é um plagiário, contando histórias que não lhe pertencem.”
Espertalhões?
“Já que o cinema falado está mais próximo do romance do ponto de vista da forma, ocorre-me que a geração literária que está surgindo poderia ver o cinema como seu tipo específico de romance, um romance a ser criado por eles com a colaboração de técnicos, mas sem a interferência do diretor, esse plagiário-espertalhão que há vinte anos domina, explora e [ocasionalmente] realça uma forma de arte que ainda está em busca de verdadeiros autores.”
Esse ensaio, traduzido por Heloisa Jahn, foi publicado em 25 de novembro de 1976, na The New York Revew of Books, e me parece muito oportuno, mesmo depois de passadas mais de três décadas. Se Gore Vidal tem ou não razão, é uma boa questão a ser debatida. Mas o que tem de diretor por aí conseguindo estragar ótimos livros não é pouca coisa...
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 10h59
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Presente e passado na obra de dois contistas gaúchos
Olhos de Morcego Uísque sem gelo
Leonardo Brasiliense Vítor Biasoli
Editora 7Letras Editora Movimento
108 páginas 86 páginas
Dois contistas gaúchos estão com livros novos na praça, Leonardo Brasiliense e Vitor Biasoli, ambos com uma obra já consistente em seus respectivos currículos. Em seu novo livro, Olhos de Morcego, Brasiliense mantém as características de obras anteriores. Toma como ponto de partida para sua ficção aqueles eventos comuns da vida quotidiana protagonizadas por pessoas simples, aparentemente sem uma grande biografia, mas que na mão de um escritor sensível e atento às mazelas humanas acabam se transformando em personagens de uma impressionante densidade psicológica.
A matéria prima de Brasilense são os dramas banais de criaturas banais que habitam cantos esquecidos do mundo quase como se não existissem. Pode se revelar tanto no episódio de um peão perdido, à noite, no meio do pampa, como no da adolescente rebelde que planeja uma fuga para se encontrar com o namorado, ou da parteira que nunca teve filhos, da viúva de um marido que só lhe deixou dividas, da avó que procura o estuprador da neta para fazer justiça com as próprias mãos, ou do genro que toma cerveja em companhia da sogra como forma de se auto-excluir dos conflitos familiares.
Nota-se, ainda, na obra de Brasiliense uma reiterada inquietação com a técnica narrativa, já nítida em seus livros anteriores, explícita agora no primeiro conto do novo livro, o excelente Fim dos Tempos. A ação se desenvolve a partir da transmissão ao vivo de uma tentativa de linchamento. Mas o interessante aqui é a técnica e o seu efeito. Por meio de uma nervosa mas equilibrada alternância de focos, que vai da câmera à tela do vídeo, do personagem que participa da ação àquele que a assiste na televisão, o autor transmite com real precisão um tipo de evento muito comum hoje na programação cada vez mais apelativa da TV brasileira. Fim dos tempos lembra o carioca Sérgio Sant’Anna, um dos autores brasileiros mais inquietos com as possibilidades técnicas da narrativa.
Vitor Biasoli, por sua vez, segue um outro viés, não menos atrativo para a literatura: a memória e suas implicações na vida presente dos personagens. O louvável em Uísque sem gelo é que o autor, ao contrário do que muito se vê em obras com tal conteúdo, não faz de seus personagens criaturas que reverenciam o passado com ranço saudosista, invocando-o como o ideal e insuperável em todos os sentidos. Pelo contrário, nessas constantes referências a fatos da infância e da juventude há sempre a necessidade, às vezes quase frenética, de reavaliar certas posturas com o objetivo de entendê-las a partir de um novo contexto. A narrativa muitas vezes vem carregada de melancolia e sofrimento, ingredientes importantes para se entender o ambiente claustrofóbico no qual mergulham os personagens-narradores de Biasoli.
O autor tangencia ainda um período emblemático da vida política brasileira, os anos 70, o auge da ditadura militar, e faz dele, sem rancor ou reverência, um pano de fundo consistente, uma espécie de rio a transitar com vigor no subsolo do texto. A agitação da vida universitária, as repúblicas estudantis, a liberação sexual, o dia a dia de uma geração inquieta que se conflita com os fortes resquícios de puritanismo do início do século fazem de Uísque sem gelo não apenas uma possibilidade de reencontro para aqueles que viveram a mesma época. Permite também às gerações mais novas o conhecimento sobre uma época ao mesmo tempo obscurantista e de libertação, marcada por importantes transformações, especialmente na área social, de costumes e de comportamento, com fortes implicações nos dias atuais. [TD]
[Revista APLAUSO - edição 91]
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 10h19
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A colheita de quem planta ventos
Um dos autores indispensávies para quem pretende seguir a carreira de escritor é o argentino Alberto Manguel. Gosto muito de Os livros e os dias, publicado no Brasil em 2005. Para escrevê-lo, Manguel escolheu doze livros importantes na sua formação profissional e pessoal e dedicou um mês para a leitura de cada um. Enquanto lia, Manguel ia fazendo observações intercaladas sobre o texto, comparações com a primeira leitura, reflexões filosóficas e considerações sobre o momento em que os leu pela primeira vez e a atualidade. O resultado é um livro fascinante não apenas pelo prazer da leitura, mas pelo caminho que nos abre para entendermos as entrelinhas de um texto e o seu processo criativo. Quando ocorreu o atentado ao WTC, por exemplo, Manguel encontrava-se num local onde não havia TV, e era informado dos acontecimentos pela sua filha, que estava no Canadá e sentia uma urgente necessidade de compartilhar com alguém o seu sentimento de horror e perplexidade. Manguel aproveitou esse momento para refletir sobre as relações de poder desenvolvidas no mundo ao longo dos tempos.
Quem planta...
O livro com o qual relaciona o atentado é Memórias de além-túmulo, de François-René de Chateaubriand, que ele lia no mês de setembro do ano posterior ao fato, quando preparava Os livros e os dias. Diz Manguel sobre a destruição das torres: “O Ocidente reconhece o Outro apenas para desprezá-lo melhor, e depois fica atônito com a resposta que recebe. [...] O horror sentido diante de atos como os do ano passado ecoa retrospectivamente ao longo da história: o horror dos árabes diante da brutalidade dos primeiros cruzados; os incas descrendo de que qualquer coisa humana pudesse ser tão sanguinária quanto as hordas de Pizarro; os aborígines da Tasmânia incapazes de colocar em palavras (pois sua língua era desprovida de tais termos) a bestialidade dos colonizadores europeus.”
Seria mais ou menos como dizer "quem planta, colhe" ou "quem semeia vento colhe tempestades". Alberto Manguel, quando jovem, em Buenos Aires, lia para Jorge Luis Borges, o que, em parte, explica o fato de seus livros serem verdadeiras celebrações à leitura.
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h02
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Marcando presença
"Nada mais sugestivo para concluir este breve olhar sobre Transversais do tempo que o conto A saideira, que abre o volume. Como estrutura narrativa, construção de trama e de personagens, é o mais bem resolvido do livro. O sussurrar da personagem no momento derradeiro do texto é surpreendente e dá ao relato uma dimensão que o ressalta do restante do conjunto."
Trecho da resenha sobre meu livro Transversais do tempo [Bertrand Brasil], de Moacyr Godoy Moreira, publicada no jornal Rascunho, de Curitiba, edição nº 83. Clique aqui para ler o texto na íntegra.
Em 2007, Transversais do tempo ganhou o prêmio Açorianos de Literatura, melhor livro de contos publicado no Rio Grande do Sul. Transversais ganhou também o prêmio de Melhor Livro de Contos, edição 2007, da Associação Gaúcha de Escritores - AGEs.
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 16h22
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O último da trilogia
A Babilônia
José Clemente Pozenato
Editora Maneco
344 páginas
Com o lançamento de A Babilônia, José Clemente Pozenato encerra a trilogia que trata da imigração italiana na região de Caxias do Sul, iniciada com os romances A Cocanha e O Quatrilho - este último transposto para o cinema, o que valeu ao filme a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, edição 1996. A saga começa em 1883, quando um grupo de italianos tomados pela miséria deixa a Itália em direção ao Brasil para, como se dizia na época, “fazer a América”. É com a esperança de aqui encontrarem o paradisíaco “Paese di Cuccagna”, onde rios de vinhos são transpostos por pontes de melão, e aves assadas despencam do céu, que esse grupo de homens, mulheres e crianças famintas embarca, deixando pátria e parentes para trás, com uma única certeza na bagagem: a de que aquela era uma viagem sem volta.
Em O Quatrilho, embora a atenção do autor esteja também voltada para as agruras e dificuldades de toda ordem que aqui encontraram esses imigrantes e seus primeiros descendentes, se sobressai, como marca mais forte do romance, um enredo de características singulares, que tem como referência o quatrilho, um jogo tradicional da época. A fortaleza desse enredo, que começa com uma traição conjugal e culmina com uma troca de casais, faz, ao natural, com que essas questões de adaptação à terra e de sobrevivência, uma preocupação constante do autor, sejam jogadas a um segundo plano.
O terceiro volume da trilogia, não poderia ser diferente, trata de uma espécie de espólio do romance anterior, pois ocupa-se daquilo que o autor deixou em aberto - ou que, por questões de estrutura, não pôde ser focado com a mesma intensidade dedicada ao núcleo dos protagonistas: o destino de Mássimo e Teresa, que, ao fugirem da cidade, deixaram o foco centrado em Ângelo e Pierina, esta, talvez, a personagem mais forte e psicologicamente mais bem construída da história. Para isso, Pozenato se utiliza de uma enredo intrincado e sugestivo, que é a questão legal dos meio-filhos diante da morte de um dos meio-pais - aliadas a isso as dificuldades naturais de convivência de irmãos e meio-irmãos sob o mesmo teto. Em O Quatrilho, após a fuga de Mássimo e Teresa, ficam com o casal Angelo e Pierina, os dois filhos de Pierina e o ex-marido. Esse fato cria uma situação de extrema delicadeza a ser resolvida, especialmente sob o ponto de vista legal, com a morte de Angelo, já que os dois não são seus filhos, são filhos apenas de Pierina. A se juntarem a essas peculiaridades as feridas ainda abertas pela traição e o fato de os dois irmãos incorporarem um estereótipo literário que, já na Bíblia, estava presente na pele de Caim e Abel.
Com pleno domínio narrativo, Pozenato, aos poucos, vai situando a história num período definido da vida política brasileira, que começa com as conseqüências do crash de 29 sobre a economia local, passa pelos bastidores da chamada Intentona Comunista, da qual participa Lourenço, um dos filhos de Pierina, tem como ponto de discussão freqüente as influências de Mussolini entre os italianos da região, e se encerra durante a Segunda Grande Guerra. O prazer da leitura é garantido, também, pela estrutura montada pelo autor para prender o leitor até a última página. Pazenato, como já se percebeu nos dois romances anteriores, segue a receita do folhetim e da justaposição de focos narrativos, na qual cada capítulo é construído de maneira que, no seu final, uma questão fique sempre aberta, sugerindo que o seu esclarecimento virá logo no capítulo seguinte.
A Babilônia fecha um trilogia na qual, sem dúvidas, O Quatrilho é o núcleo de atração e em torno do qual orbitam as duas outras obras da serie. [TD]
[Revista APLAUSO - edição 81]
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h11
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Oficina de literatura - contos
Rua Dona Laura, 207/405
Bairro Rio Branco - Porto Alegre-RS
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h26
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No tempo das utopias
A Idade da Paixão
Rubem Mauro Machado
Editora Bertrand Brasil
228 páginas
Em recente visita a Porto Alegre, o escritor moçambicano Helder Macedo falou sobre uma espécie de estado anestésico ao qual estão submetidos os jovens de hoje, especialmente em função das novas formas de comunicação via tevê e internet. Na sua opinião, a ausência de utopias faz com que as gerações atuais sejam formadas por criaturas sem causa, de idéias rarefeitas, o que lhes tira a aptidão para o exercício da criatividade e da cidadania. Entende Macedo que a escassez de grandes lideranças, hoje, tem nessa realidade de ausência de sonhos uma das grandes causas.
A Idade da Paixão, de Rubem Mauro Machado, não deixa de ser uma ilustração desse pensamento, pois é no início dos anos 60 que o autor situa a sua história, uma década marcada pela manifestação de idéias e de opiniões, na qual a juventude, via movimento estudantil, participava de forma ativa da vida política e cultural do país. Corroborando com Macedo, pode-se dizer que as cabeças mais pensantes da política e da cultura brasileira atuais foram iniciadas ainda nesse período.
No seu romance, Rubem Mauro Machado pinta um retrato que tem como pano de fundo momentos decisivos na vida política do Brasil, a partir da renúncia de Jânio Quadros da Presidência da República, seguida da chamada Legalidade, movimento fincado no Rio Grande do Sul, que, levantando a bandeira do respeito à Constituição, garantiu a posse de João Goulart no cargo de Presidente do Brasil. O cinema vivia seu auge, o rádio e o disco - como diz o crítico José Hildebrando Dacanal na orelha de outro livro de Rubem Mauro, O Inimigo na Noite - “eram os símbolos da modernização urbano-industrial que começava a invadir todo o centro-sul do Brasil, na trilha da inserção definitiva do país no sistema capitalista internacional.”
Aliás, O Inimigo na Noite, publicado também em 1985, não deixa de ser um ensaio para o vôo mais longo que vem a ser A Idade da Paixão - ambos se passam no mesmo período: um em 1960, o outro em 1961. Seus protagonistas são dois jovens envolvidos com esses glamurosos meios de comunicação que, para aqueles economicamente menos privilegiados, era a única forma de inserção a um mundo de horizontes mais distantes das pequenas cidades interioranas onde viviam. Dario Alves, o personagem principal de O Inimigo na Noite, tem um programa de rádio e domina os assuntos relativos à música e ao cinema com desenvoltura. Essa era a atividade com a qual todo e qualquer jovem de classe média sonhava exercer.
Forjado na mesma têmpera de seu antecessor Daria Alves, o protagonista de A Idade da Paixão [que é natural de Santa Maria, cidade onde se passa a ação de O Inimigo na Noite] quer mesmo é ser jornalista e escritor, embora predestinado a cursar Direito como o pai. Lembra Dacanal que ser locutor, programador, crítico de cinema ou jornalista era dar um salto sobre o limitado horizonte provinciano da época. Não é por acaso, então, que o personagem-narrador de A Idade da Paixão agarra-se à perspectiva de um dia vir a escrever textos de sucesso, tirando daí a energia necessária para enfrentar uma grande decepção amorosa e transpor os naturais obstáculos que um estudante interiorano, morador de pensão na capital, enfrenta numa Porto Alegre de indisfarçáveis contrastes econômicos e sociais.
A Idade da Paixão foi publicado originalmente em 1985 e agora ganha nova edição, revista pelo autor, em comemoração aos 20 anos do Prêmio Jabuti de Melhor Romance, edição de 1986. [TD]
[Revista APLAUSO - edição 80]
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h35
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Nos dedos...
Desde o início que eu vinha pensando em escrever algo sobre essa história de tirar os passaportes dos pilotos americanos do jatinho que bateu no boeing da Gol, em acidente que causou a morte de 154 pessoas. O jornalista Élio Gaspari, em lúcido texto sobre o assunto, me desobriga de queimar neurônios para fazê-lo:
"Noves fora o The New York Times, pode-se imaginar o seguinte: um jatinho de uma empresa brasileira rasga um boeing de uma empresa americana e o derruba sobre o Grand Canyon do Colorado. Exagero acreditar que os tripulantes e passageiros do Lagacy acabarão em Guantánamo. Mas não é exagero garantir que nenhum deles será rapidamente liberado para escrever artigo e dar entrevista lançando suspeitas sobre o governo americano."
Nos dedos...
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 12h03
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Um testemunho sobre a censura no Brasil
Censura e outros problemas dos escritores latino-americanos
Antonio Callado
Editora José Olympio
98 páginas
R$ 20
Antonio Callado foi um combativo jornalista que se insurgiu contra a censura no Brasil, de Vargas aos militares pós-64. Era um estudioso, não buscava as causas da censura apenas no lado do poder. Procurava ir além, no estágio quase inconsciente do censurado que, por se omitir, colaborava com um estado de espírito no qual a “auto-estima democrática” não era um fenômeno presente. Em boa hora, a editora José Olympio publica três conferências proferidas por Callado em 1974, sob o título Censura e outros problemas dos escritores latino-americanos. Em boa hora porque, de tempos em tempos, temas como esse precisam ser lembrados para não serem repetidos.
Callado começa por fazer uma análise da sua trajetória de jornalista e escritor. Fala das viagens que fez e que marcaram profundamente seu modo de pensar - duas delas típicas do jornalista latino-americano da época. A primeira caracterizava-se como de educação e formação de caráter, feita normalmente à Europa. Nela havia um movimento de fuga e de afastamento das injustiças sociais, do caos da vida política do continente e das ditaduras: “Vim para a Inglaterra, para Londres, em 1941. [...] Em vez de ficar no Brasil escutando os louvores - e só em português - à ditadura Vargas, na BBC da época da guerra eu podia ouvir todas as ditaduras do mundo serem atacadas em não menos do que 57 diferentes idiomas e dialetos.”
A segunda viagem era de retorno ao âmago de seus respectivos países. Uma jornada que Callado classifica como de espírito contrito e cheio de remorso, na qual o jornalista nadava contra a corrente, subia rios e quedas, em busca de sua própria identidade. Foi assim que nasceu Quarup, um dos romances mais reveladores da identidade brasileira e das utopias nas quais acreditava seu autor e os intelectuais da época. Especificamente sobre a literatura brasileira, Callado entende que a mesma reflete, em sua ambigüidade, a estrutura tradicional de repressão existente na sociedade latino-americana: “Nossos pobres escravos foram os últimos negros a se libertarem em todo o mundo”, mas no Brasil “nunca se produziu algo como, digamos, A cabana do pai Tomás”; “Alencar foi um grande romancista; Machado foi um gênio. Nenhum dos dois [...] optou por abordar o destino dos escravos ou demonstrou qualquer curiosidade por aquele vasto Brasil que se espalhava, governado a partir do Rio por um monarca louro e de olhos azuis e seu séqüito formado por barões do café e do açúcar”; “O único livro que descreve a era Vargas e que se destaca pelo seu valor é Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos.”
Callado ainda aborda outros tipos de censura, que podem ser chamados de indiretos, como o controle do papel ou o uso da publicidade oficial como forma de pressionar as redações. São textos significativos para se conhecer as agruras de uma época, mas que não deixam de ser atuais. Pelo que se conhece do obstinado Antônio Callado na sua luta em defesa da livre criação, certamente hoje estaria entre aqueles que vêem nas leis de incentivo - que permitem empresários abater dos impostos a verba investida em cultura - uma espécie de censura surda praticada pelo poder econômico, que só viabiliza projetos de seu interesse. Enquanto alguns eventos de conteúdo cultural duvidoso saem do papel, outros de qualidade superior, mas de pouca repercussão na mídia, mofam nas gavetas, mesmo aprovados, a espera de interessados em neles investir. Isso, diria Callado, limita o alcance do criador, tira dele “o ânimo de tentar qualquer coisa nova e de se vincular à vida real do país.” O que, cá entre nós, também vem a ser uma brutal forma de censura. [TD]
[Revista APLAUSO - edição 78]
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h52
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UMBIGO DA COBRA NO FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO
Terra prometida, curta-metragem, 16mm.
Direção: Guilherme Castro
Roteiro: Guilherme Castro e este redator
Baseado no conto Terra Prometida, do livro Trégua para o silêncio, deste redator, IEL/Unisions - 1996
Martins Produções e FRUMPROARTE
PRÊMIOS
Mostra Gaúcha, Prêmio Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul:
Melhor Filme
Melhor Diretor
Melhor Ator - Fernando Kike Barbosa
Mostra Nacional [kikitos]:
Melhor Filme
Melhor Diretor
Melhor Atriz - Araci Esteves

Guilherme Castro, Regina Martins [Martins Produções] e este redator
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 15h45
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TIME DESFALCADO
O diretor Beto Rodrigues me informa que, por problemas com laboratório, Rolex de Ouro não ficará pronto a tempo de participar da Mostra Gaúcha do Festival de Cinema de Gramado. Sai, portanto da programação. Mas, para Brasília e Recife, os próximos festivais, estará na mão. O UC fica, portanto, com 50% de sua produção em Gramado. Terra Prometida vai para o telão, concorrendo na Mostra Nacional em 16mm, no dia 16.08, quarta-feira, às 14h30min. Todo mundo lá de olho nesse kikito!
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h55
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UC NO TELÃO DE GRAMADO
Foi divulgada nesta semana a lista dos filmes que participarão das mostras competitivas do Festival de Cinema de Gramado, de 14 a 19 de agosto. Aparecem lá, na Mostra Nacional, categoria 16mm, Terra Prometida, roteiro escrito por este redator em parceria com o diretor Guilherme Castro, e, na Mostra Gaúcha, categoria 35mm, Rolex de Ouro, roteiro também escrito aqui na redação do UC, dirigido por Beto Rodrigues.
Detalhes sobre Terra Prometida o amigo leitor pode encontrar rolando a página até lá embaixo, ou clicando ali ao lado, nos textos postados entre 01/04/2006 a 30/04/2006. Está disponível, inclusive, o conto que deu origem ao roteiro, publicado oririnalmente no meu livro Trégua para o Silêncio, de 1994, uma co-edição IEL/Unisinos.
E aqueles amigos que quiserem dar uma espiada nos detalhes de Rolex de Ouro, que tem no elenco Zé Victor Castiel, Tacísio Meira Filho e Ingra Liberato, podem simplesmente clicar aqui.
Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 10h00
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